A tese do filósofo árabe
No início do século 14 ocorreu uma mudança radical na forma de escrever a História. Surgiu uma nova maneira de narrar e refletir sobre os acontecimentos. Afinal, ao relatar apenas aquilo que ocorreu, surgem inevitavelmente várias perguntas: por que isso aconteceu precisamente dessa forma? Quais motivos levaram a determinado acontecimento? Que condições devem existir para compreender o comportamento humano em um determinado grupo social? Esses questionamentos pertencem a outro importante campo do conhecimento: a historiosofia, isto é, a filosofia da História.
No ano de 1375, o filósofo Abū Zayd Abd Ar-Raḥmān ibn Muḥammad ibn Khaldūn Al-Ḥaḍramī (1332–1406), conhecido como Ibn Khaldun, descreveu um processo sociológico e antropológico que, segundo ele, se repete em quase todas as sociedades: a primeira geração está disposta a sacrificar-se pelo bem comum, enquanto a segunda e a terceira gerações, que já nascem em condições favoráveis, passando a pensar apenas em si mesmas. Um processo semelhante atravessa atualmente o Estado de Israel.
O primeiro pensador árabe a tratar a historiosofia de forma sistemática foi Ibn Khaldun. Além de escrever obras de caráter histórico, publicou a Muqaddima, considerada a primeira grande obra árabe de reflexão histórico-filosófica da era pré-moderna. Nela, apresenta sua doutrina ilustrando suas explicações por meio de processos históricos. Em uma perspectiva surpreendentemente moderna, seu relato reúne elementos de sociologia, antropologia, administração, economia e teoria das organizações.
Para Ibn Khaldun, a História é uma ciência que se desenvolve em movimentos cíclicos. Na primeira etapa, forma-se um grupo beduíno que habita o deserto, um ambiente de recursos escassos, onde faltam água e alimentos. Nessas circunstâncias, estabelece-se uma luta constante pela sobrevivência entre os diversos grupos que ali vivem.
Cada grupo beduíno constitui um corpo coeso, no qual reina a Azabia, conceito que pode ser definido como o “espírito grupal” da tribo. Nessa comunidade prevalece uma cultura própria, norteada por laços de fraternidade, lealdade, compromisso, autossacrifício, espírito de luta, preservação dos direitos e um forte senso de solidariedade, capaz de manter a honra individual e coletiva.
Ainda nessa primeira etapa, os membros da tribo sacrificam seus interesses individuais em benefício do coletivo. Vale lembrar aqui o célebre lema do escritor Alexandre Dumas: “Todos por um e um por todos”, talvez a melhor síntese desse espírito comunitário. A ajuda mútua torna-se um valor essencial, sobretudo em tempos de conflito, quando o estranho é visto como um inimigo permanente. O tamanho do grupo, seu armamento, seu grau de coesão e seu espírito solidário constituem os fundamentos indispensáveis para que essa coletividade alcance seus objetivos. Sendo árabe, Ibn Khaldun considera a cultura beduína o ponto mais elevado da civilização humana.
Na segunda etapa, a tribo encontra uma região fértil do deserto, onde há água, terras agricultáveis e moradias. Ali vive uma comunidade de agricultores cujo senso de unidade é frágil e enfraquecido. Tudo já está preparado. A tribo beduína, então, ataca esses agricultores, expulsa-os de suas terras e instala-se em seu lugar. Os beduínos chegam preparados para o combate, e seu sólido espírito grupal lhes permite conquistar a região com determinação. Sua experiência militar serve como fator de dissuasão, levando os demais grupos a manter deles uma prudente distância.
A segunda geração da tribo beduína nasce em um ambiente de maior conforto e desfruta de condições de vida favoráveis, sem experimentar a escassez enfrentada por seus pais. Aprende gradualmente a arte da guerra, mas jamais vivencia as dificuldades e os combates que moldaram a geração anterior. Seus membros passam a interessar-se cada vez mais pelos benefícios da propriedade privada e do consumo. Como consequência, a coesão do grupo diminui progressivamente, e o espírito grupal enfraquece a cada geração.
A terceira geração de beduínos apenas ouve falar das lutas heroicas travadas pelos avós, mas seu envolvimento militar é mínimo. Trata-se de uma geração alienada, interessada sobretudo em tecnologia, celulares, música, arte, desenvolvimento pessoal e acumulação de bens materiais. O grau de “Azabia” ou espírito grupal sofre um declínio acentuado. A lealdade e a solidariedade se desgastam, a coesão desaparece, o individualismo e o egoísmo aumentam, os conflitos internos se multiplicam e a capacidade de resistir aos inimigos torna-se reduzida ou mesmo inexistente.
Enquanto isso, no deserto, forma-se novamente um grupo dotado de forte espírito comunitário. Ao perceber a fragilidade da sociedade estabelecida, ele a ataca, expulsa seus habitantes e ocupa seu território. Assim, o ciclo se repete: a primeira geração sabe conquistar e proteger; a segunda enfraquece; e a terceira desaparece por completo.
A ruptura na sociedade israelense
Até aqui estudamos de que forma o filósofo Ibn Khaldun compreendeu a história humana. Ao transpor sua teoria para a presente reflexão, observamos que o jovem Estado de Israel foi criado pela “geração dos fundadores”, composta por judeus perseguidos na Europa e por imigrantes que chegaram à Terra de Israel sem nada, mas com esperança e determinação.
Os pioneiros sionistas pavimentaram estradas com as próprias mãos, drenaram pântanos na Galileia apesar da malária, estabeleceram comunidades agrícolas (kibutzim e moshavim), cultivaram a terra e viveram em condições extremamente difíceis. Apesar disso, mantiveram um sentido de solidariedade, compromisso, lealdade ao país e fidelidade à sua herança cultural e espiritual.
Essa primeira geração foi a dos “chalutzim” (pioneiros), que viveu entre o final do século 19 e o início do século 20. Assistiu ao nascimento do Movimento Sionista, um dos mais improváveis movimentos de libertação nacional surgidos na Europa. Não foi fácil construir um consenso entre as diversas correntes do judaísmo, mas todas compartilhavam um objetivo comum: encontrar um território capaz de oferecer uma solução para a chamada “questão judaica” (Judenfrage), agravada naquele momento pelo crescimento do antissemitismo.
A Primeira Guerra Mundial (1914–1918) trouxe profundas transformações ao mapa político da Europa e do Oriente Médio. Consolidaram-se novas potências, ao mesmo tempo em que diversos povos passaram a reivindicar sua soberania e independência nacionais.
Durante o período compreendido entre 1917 e 1948, o Yishuv (comunidade judaica da Palestina sob Mandato Britânico) construiu uma sólida infraestrutura nas áreas de segurança, política, economia, cultura e educação. Convém destacar que esse processo ocorreu em um ambiente marcado por constantes tensões e episódios de violência envolvendo tanto setores árabes quanto as autoridades britânicas.
O Holocausto reforçou dramaticamente a necessidade de uma pátria para os refugiados judeus na Terra de Israel. Organizações paramilitares de diferentes orientações ideológicas — Haganá e Palmach, de um lado, Etzel e Lehi, de outro — combateram com recursos limitados e contribuíram para o fim do Mandato Britânico. Naquele período, o serviço militar era considerado um dever quase sagrado. Quem tentasse evitá-lo carregava um forte estigma social, uma verdadeira “marca de Caim”, pois havia plena consciência das ameaças representadas pelos países e grupos árabes vizinhos.
A segunda geração de israelenses nasceu em uma realidade muito mais estruturada. Para boa parte dela, o Estado judeu representava um direito adquirido, embora continuasse sendo necessário defendê-lo em sucessivas guerras. Composta majoritariamente por sabras, essa geração já não precisou construir tudo do zero. Desenvolveu uma economia mais rica e diversificada, impulsionou a industrialização e consolidou uma sociedade cada vez mais voltada para a realização individual. Aqueles que procuravam escapar do serviço no Tzahal (Forças de Defesa de Israel) passaram a sofrer menor reprovação social do que na geração anterior. Muitos privilegiaram os estudos universitários enquanto seus contemporâneos cumpriam longos períodos de treinamento militar. Na época, paralelamente, difundiram-se movimentos pacifistas, como o “Paz Agora”, que procurava construir um diálogo com vizinhos árabes, baseado no reconhecimento mútuo.
A terceira geração concentrou-se ainda mais nos projetos individuais. Ao ingressar nas Forças de Defesa de Israel, muitos passaram a preferir funções de retaguarda — administração, inteligência ou comunicações — que lhes proporcionassem conhecimentos úteis para a futura vida civil. Vivendo em uma sociedade globalizada e em permanente transformação, foram atraídos por viagens internacionais, pela constituição de famílias e pelo desenvolvimento profissional.
Tanto na terceira quanto na quarta geração de israelenses, o compromisso com a ideologia sionista e com o Estado, segundo a interpretação aqui proposta, diminuiu sensivelmente. O serviço militar deixou de ser percebido como prioridade e passou a ser encarado sobretudo como uma obrigação legal. Muitos passaram a adotar estilos de vida marcadamente individualistas, valorizando o consumo, o lazer, a gastronomia, as viagens e a realização pessoal. O espírito coletivo descrito por Ibn Khaldun enfraqueceu progressivamente. Paralelamente, difundiu-se entre parte da juventude a convicção de que Israel deveria definir-se prioritariamente como um Estado democrático, antes de enfatizar seu caráter judaico.
Na tentativa de justificar esse enfraquecimento do espírito de luta, parte dessa geração desenvolveu concepções universalistas de convivência com os vizinhos árabes, apostando na possibilidade de coexistência pacífica. Caso esse projeto fracassasse, muitos passaram a considerar natural emigrar para cidades como Nova Iorque, Miami, Berlim, Paris ou Londres. Não por acaso, uma parcela significativa de cidadãos israelenses reside atualmente nos Estados Unidos.
Convém lembrar que, na Muqaddima, a teoria de Ibn Khaldun possui caráter cíclico. Enquanto isso, outro grupo fortalece seus vínculos internos. Grande parte da população palestina vive em condições econômicas difíceis e sob diferentes formas de instabilidade política. Apesar de suas divisões internas, desenvolveu forte capacidade de mobilização, resistência e disposição para o sacrifício. Observa uma sociedade israelense marcada por elevado nível de desenvolvimento, mas também por crescente polarização política e social. A diferença demográfica e o fator tempo são vistos, por muitos, como elementos favoráveis às suas aspirações nacionais.
Há israelenses que percebem esse desgaste da sociedade no período pós-moderno e procuram revitalizar o ideal sionista. Nesse contexto difícil surgiram organizações como o “Hashomer Hachadash”, o “Fórum Café Shapira”, o “Fórum Kohelet”, o “Círculo de Professores pela Resiliência Política e Econômica” e o “Students for the Temple Mount”, entre outras iniciativas que buscam fortalecer determinados valores nacionais e romper o processo descrito por Ibn Khaldun na Muqaddima.
O movimento de colonização dos territórios conquistados em 1967 também foi interpretado por alguns setores como uma renovação do espírito pioneiro. Entretanto, segundo essa leitura, o desgaste interno continuou avançando. Ao mesmo tempo, organizações como o “Fundo para um Novo Israel” e outras entidades passaram a exercer crescente influência sobre o debate público, enquanto decisões do Supremo Tribunal de Justiça alimentaram intensas controvérsias em torno de questões fundiárias, institucionais e constitucionais. Paralelamente, grupos islamistas como o Hamas e a Irmandade Muçulmana intensificaram seus esforços para enfraquecer e desestabilizar o Estado de Israel.
Na atualidade, a sociedade israelense vive um intenso processo de disputa acerca de seu futuro. De um lado, diferentes setores políticos e sociais defendem projetos profundamente distintos para o país; de outro, organizações civis procuram fortalecer os fundamentos democráticos, nacionais e culturais do Estado, procurando impedir aquilo que entendem como uma deterioração de seus valores constitutivos.
Essa disputa manifesta-se diariamente na mídia, na universidade, no sistema jurídico, nas artes, na economia e na política. Em um momento de profundo exame de consciência coletiva, torna-se indispensável refletir sobre a direção que a sociedade israelense pretende seguir.
O caminho descrito por Ibn Khaldun na obra Muqaddima é rigoroso e aponta para um processo de desgaste que pode atingir qualquer sociedade. Para alguns, trata-se de uma dinâmica histórica inevitável; para outros, constitui um alerta que permite reconhecer os sinais da decadência e agir antes que o processo se torne irreversível.
Bibliografia:
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