Em “O Segredo de Romã”, Reuven Faingold demonstra que a fronteira entre História e Literatura pode ser não apenas atravessada, mas enriquecida. Historiador experiente e conhecedor da viagem de Dom Pedro II à Terra Santa em 1876, o autor transforma uma rica documentação histórica em narrativa viva, oferecendo ao leitor uma obra que combina rigor acadêmico, imaginação literária e sensibilidade humana. O primeiro romance de Faingold se destaca pela capacidade de recriar uma época sem aprisionar o leitor à formalidade dos fatos. A peregrinação imperial, registrada nos diários do próprio Dom Pedro II, serve como pano de fundo para uma trama que privilegia personagens, emoções e descobertas. Nesse contexto, o camareiro Romã emerge como uma figura particularmente instigante.
Mais do que simples acompanhante da comitiva imperial, ele funciona como os olhos prescrutadores diante de um mundo marcado por contrastes e mistérios. Embora circule entre figuras históricas de grande relevância, ele jamais se reduz à condição de mero observador. Sua presença confere um interessante dinamismo à narrativa, funcionando como contraponto às reflexões eruditas e hipóteses científicas de Dom Pedro II. Enquanto o imperador contempla monumentos, línguas antigas e questões de caráter histórico, Romã reage aos desafios concretos da viagem, aos encontros inesperados e às experiências cotidianas do percurso.
Dessa complementaridade nasce um diálogo entre diferentes formas de compreender o mundo: de um lado, a ampla curiosidade intelectual do monarca; de outro, a sensibilidade prática do camareiro. O que aparentaria uma interlocução pautada pela assimetria cultural entre ambos é transposta pela sagacidade que Romã apresenta como interlocutor. É justamente nessa relação que trás um caráter inédito à narrativa, permitindo que o leitor acompanhe os acontecimentos tanto pela perspectiva da grande História quanto pela dimensão íntima daqueles que a vivenciam.
Algumas das passagens mais bem-sucedidas da obra de Faingold são aquelas em que a História cede espaço à intimidade das experiências humanas. As descrições das caravanas cruzando paisagens áridas, os encontros com beduínos e peregrinos, as conversas em torno das fogueiras e a chegada às cidades sagradas criam imagens de forte apelo visual. O leitor pode experimentar o calor do deserto, percebe o fascínio dos viajantes diante das ruínas antigas e compartilhar a vivacidade e a inteligência de Dom Pedro II.
A uma figura distante e monumental de um Monarca, cede lugar a um homem culto e apaixonado pelo conhecimento. Episódios relacionados ao seu interesse pela língua hebraica, pela arqueologia bíblica e pelas diferentes tradições religiosas do Oriente mostram outras facetas do personagem e ajudam a compreender a singularidade da viagem. Um dos mais marcantes é a visita de Dom Pedro II ao emir Abd El Kader, em Damasco. O soberano brasileiro e o líder muçulmano, conhecido por sua coragem militar e por sua defesa da convivência entre credos, protagonizam um encontro pautado pelo respeito mútuo e pela admiração intelectual. Faingold nos apresenta dois homens de origens distintas unidos pelo apreço ao conhecimento e pela valorização da dignidade humana.
Outro episódio memorável é a visita à lendária Lady Jane Digby Ellenborough e a seu marido beduíno, Medjuel. A aristocrata inglesa que abandonou os salões da Europa para viver entre as tribos do deserto encarna, talvez como nenhuma outra personagem da viagem, a fusão entre Oriente e Ocidente. No romance, sua presença acrescenta um tom quase novelesco à narrativa. O leitor pode se emocionar com a passagem pelo antigo Mosteiro de Saint Sabbas, nas proximidades de Jerusalém. Ali, em meio ao deserto da Judeia, Pedro II entra em contato com uma das mais antigas tradições do cristianismo oriental.
O encontro com os monges gregos e a atmosfera de recolhimento espiritual oferecem um contraponto à movimentação das grandes cidades, evidenciando a diversidade religiosa e cultural que caracteriza a Terra Santa. Não é fortuita a sensação de estar diante de um espaço onde séculos de fé, silêncio e contemplação permanecem à flor da pele.
O romance trabalha bem a reconstrução dos cenários. Beirute, Damasco, Jerusalém, Baalbek e as margens do lago de Genesaré ou Tiberíades não aparecem apenas como pontos geográficos; transformam-se em espaços carregados de memória, simbolismo e significado histórico. O texto carreia um ritmo agradável, alternando momentos de aventura e reflexão. Essa característica torna a obra particularmente valiosa para leitores jovens, mas também para adultos interessados em história, viagens e literatura histórica. Mais do que um romance sobre uma viagem, “O Segredo de Romã” é uma bela reflexão sobre encontros: entre Oriente e Ocidente, entre passado e presente, entre memória e identidade.
Ao recuperar um episódio pouco conhecido, mas não menos importante, da história brasileira, Reuven Faingold oferece uma narrativa que emociona e instrui sem reduzi-la ao didático. Em muitas ocasiões como a abaixo, ambos interagem e produzem no leitor um deslocamento que vai do turismo bíblico aos insights psicológicos, como ilustra o trecho: “Observaram também a “Fonte de Eliseu”, onde a água brotava milagrosamente da própria rocha. Nas proximidades de Sodoma e Gomorra, Romã apontou para formações salinas: — Aquela ali, Majestade… poderia ser a mulher de Lot? — Talvez, Romã. Mas a verdadeira estátua de sal é a que criamos quando olhamos para trás com arrependimento, e não com esperança.”
Conforme Todorov assinalou, a memória é a nossa força contra o nada. O nada, que em tempos mais sombrios da humanidade assedia o conhecimento, impõe intolerâncias e ameaça apagar seu registro, e ao visar retirar nosso senso histórico, ele nos subtrai o presente. Felizmente existem pessoas que, com habilidade autoral, erudição histórica e arte, resgatam o passado e frustram essa tentativa de nos cegar às trajetórias que nos trouxeram até este momento. O resultado é uma obra abrangente e cativante que abrange simultaneamente o historiador e o romancista.
Ao final da leitura, permanece a sensação de ter acompanhado uma verdadeira travessia cultural e humana. Percebe-se que a grande riqueza da viagem de Dom Pedro II reside justamente na descoberta do outro. É essa dimensão humana, universal e literária que confere ao livro “O Segredo de Romã” um brilho permanente.
O leitor que se aventurar decerto fará uma viagem magnífica e de fácil navegação.
Asseguro que vale a travessia.
