Entre História e Ficção: Os bastidores do romance “O Segredo de Romã”

Entre História e Ficção: Os bastidores de “O Segredo de Romã

A análise da viagem de Sua Majestade Dom Pedro II à Terra Santa, em 1876, recriada em “O Segredo de Romã” (KDP-Amazon, 2026), revela um contraste particularmente fértil entre a rigidez documental dos fatos e a liberdade sensível da ficção. Foi justamente nesse território de tensão entre documento e imaginação que nasceu meu primeiro romance histórico.

Ao escrever “O Segredo de Romã”, procurei demonstrar que a fronteira entre História e Literatura pode não apenas ser atravessada, mas também enriquecida. Ter pesquisado, decifrado e publicado a documentação relacionada à viagem do Segundo Imperador do Brasil — reunida em “D. Pedro II na Terra Santa: Diário de Viagem – 1876” (Editora e Livraria Sêfer, 1999) — foi certamente um ponto de partida decisivo. A pesquisa oferecia o chão documental; a literatura permitia imaginar aquilo que o documento, por sua própria natureza, não registra: gestos, silêncios, emoções, olhares, dúvidas e diálogos.

Meu primeiro romance procura, assim, recriar uma época sem aprisionar o leitor à formalidade dos fatos. A peregrinação imperial, registrada nos diários do próprio monarca, serve de pano de fundo para uma narrativa que privilegia personagens, emoções e descobertas. O objetivo deste artigo é revelar os caminhos percorridos entre a pesquisa histórica e a construção literária de “O Segredo de Romã”.

  1. Motivação e identidade

Dom Pedro II chegou ao Oriente Médio em 1876 movido por uma curiosidade intelectual que ultrapassava em muito o caráter religioso da peregrinação. Seu diário pessoal revela um homem interessado simultaneamente pela ciência, pela arqueologia, pela linguística, pela história e, de maneira muito particular, pelo hebraico bíblico e pela leitura do Antigo Testamento.

Naquele momento, o imperador desejava também viver sua passagem pelos cinquenta anos de idade em Jerusalém de maneira relativamente discreta. A viagem tinha, portanto, uma dimensão pessoal que se somava à sua conhecida curiosidade intelectual. Não se tratava apenas de visitar lugares sagrados ou monumentos antigos: havia o desejo de compreender, registrar e aprender.

Durante a escrita do romance, procurei preservar a precisão do cenário histórico presente na documentação, mas também abrir espaço para aquilo que os documentos deixam apenas entrever. O cansaço, os longos deslocamentos, o isolamento, a distância da corte e as diferenças sociais que atravessavam a caravana poderiam ser sugeridos, mas não estavam desenvolvidos no diário com a mesma intensidade dedicada às paisagens, aos monumentos e às observações intelectuais.

Na ficção, portanto, a viagem à Terra Santa deixa de ser apenas um roteiro erudito ou arqueológico e transforma-se também em uma travessia humana. A coroa, símbolo de poder e autoridade, passa a carregar um peso que só pode ser percebido quando observamos o homem que existe por trás do título de imperador.

  1. A logística – nobres e criados

Os registros da viagem mostram que a comitiva imperial reunia cerca de duzentas pessoas, entre membros da família imperial, nobres, criados, militares e outros acompanhantes. Uma expedição dessa dimensão exigia uma complexa estrutura de transporte, alimentação, hospedagem e segurança. A marcha pela região implicava deslocamentos, uso de animais, acampamentos e o trabalho constante daqueles que organizavam e sustentavam a caravana.

O diário de Dom Pedro II, entretanto, concentra-se sobretudo nas paisagens, nos monumentos, nas inscrições, nas questões religiosas e nas conversas e observações intelectuais que despertavam seu interesse. É compreensível: o diário é, antes de tudo, o olhar de um viajante erudito.

O romance procura deslocar parcialmente esse ponto de vista. “O Segredo de Romã” dá protagonismo aos “invisíveis”: aqueles que aparecem pouco na documentação, mas sem os quais a viagem simplesmente não teria sido possível. A ficção permite preencher essas lacunas ao descrever o esforço físico, a poeira, o calor, o cansaço e a disciplina dos numerosos criados que carregavam, protegiam e organizavam os pertences da comitiva.

Foi nesse movimento que percebi uma das possibilidades mais interessantes da literatura histórica: olhar para o acontecimento não apenas a partir daqueles que escreveram a História, mas também daqueles que ajudaram a torná-la possível.

  1. O camareiro Romã

Nos documentos que pesquisei e transcrevi, os criados pessoais aparecem sobretudo de maneira marginal, em nomes, referências funcionais ou anotações relacionadas à organização da viagem. Romã é mencionado na documentação, mas não encontramos ali uma biografia desenvolvida, pensamentos, conflitos ou diálogos entre ele e o imperador. É precisamente nesse espaço, documentalmente silencioso, que nasce o personagem central do romance.

Romã é uma criação ficcional e, ao mesmo tempo, o fio condutor da narrativa. Ele funciona como contraponto a Pedro II. Por meio da interação entre o imperador e seu camareiro, procurei explorar diferenças sociais, tensões culturais e formas distintas de olhar o mesmo mundo. Durante as noites e os deslocamentos pelo Levante, os dois podem compartilhar impressões que dificilmente apareceriam em um documento oficial.

Romã, entretanto, não deveria ser apenas um acompanhante. Sua função literária é mais profunda. Ele observa. Escuta. Questiona. Percebe aquilo que o olhar erudito do imperador às vezes deixa escapar. Enquanto Dom Pedro II contempla monumentos, línguas antigas e questões históricas, Romã reage aos desafios concretos da viagem, aos encontros inesperados, aos perigos e às pequenas experiências cotidianas.

Assim, o camareiro torna-se também uma espécie de consciência narrativa. Seu olhar aproxima o leitor da caravana e humaniza uma figura imperial que poderia permanecer distante. Entre Sua Majestade e seu servidor existe uma distância social evidente; a literatura, porém, cria um espaço em que essa distância pode ser temporariamente encurtada pela conversa, pela curiosidade e até pela experiência compartilhada.

  1. Os cenários da Terra Santa

A comitiva percorreu durante 24 dias territórios então pertencentes ao Império Otomano, guiada pelo franciscano Liévin de Hamme. O diário registra informações sobre topografia, distâncias, paisagens e monumentos de lugares como Baalbek, Damasco, o monte Hermon, Tiberíades, Nablus, a região da Samaria, Jerusalém e outros pontos do percurso.

Embora tenha respeitado o itinerário documentado, o romance visa acrescentar ao cenário aquilo que a narrativa histórica necessita para ganhar vida: cores, cheiros, sons, calor, poeira, silêncio e tensão. O espaço geográfico deixa de ser apenas um ponto no mapa e passa a influenciar o comportamento das personagens.

Beirute, Damasco, Jerusalém, Baalbek e as margens do lago de Genesaré ou de Tiberíades não aparecem apenas como referências geográficas. Transformam-se em espaços carregados de memória, simbolismo e significado histórico. O leitor acompanha uma caravana, mas também percorre diferentes camadas do passado.

O ritmo do romance alterna aventura, observação e reflexão. Essa combinação permite que a narrativa dialogue tanto com leitores interessados em História quanto com aqueles que procuram uma experiência literária. Minha preocupação foi evitar que a pesquisa se transformasse em exposição didática. A informação histórica deveria estar presente, mas integrada à ação e aos personagens.

Mais do que um romance sobre uma viagem, “O Segredo de Romã” procura ser uma reflexão sobre encontros: Oriente e Ocidente, passado e presente, memória e identidade. Ao recuperar um episódio ainda pouco conhecido da história brasileira, procurei construir uma narrativa leve, capaz de emocionar sem abandonar a responsabilidade histórica.

Em determinadas passagens, o olhar desloca-se do turismo bíblico para uma percepção mais psicológica. É o que acontece na visita ao Mar Morto, quando Romã pergunta se uma formação de sal poderia ser a mulher de Lot. A resposta imaginada por Dom Pedro II transforma o episódio bíblico em reflexão sobre a memória, o arrependimento e a esperança.

Algumas das passagens mais expressivas do romance surgem justamente quando a História cede espaço às experiências humanas: as caravanas atravessando lugares áridos, os encontros com beduínos e peregrinos, as conversas ao redor das fogueiras e a chegada às cidades. São momentos em que a pesquisa deixa de ser apenas informação e se transforma em atmosfera.

  1. Personagens da Terra Santa

Ao longo do romance, procurei reconstituir episódios relacionados ao interesse de Dom Pedro II pela língua hebraica, pela arqueologia bíblica e pelas diferentes tradições religiosas do Oriente Médio. Esses episódios ajudam a revelar outras facetas do personagem e a compreender melhor a singularidade da viagem.

Um dos encontros mais marcantes é a visita ao emir Abd-El-Kader, em Damasco. O soberano brasileiro e o líder muçulmano, conhecido por sua atuação militar e por sua defesa de princípios de convivência entre diferentes grupos religiosos, são apresentados como homens de origens distintas, mas unidos pelo respeito mútuo e pelo interesse intelectual.

Outro episódio memorável é a visita a Lady Jane Digby Ellenborough e a seu marido beduíno, o sheik Medjuel. A aristocrata britânica, que abandonou os círculos da Europa para viver no Levante, representa no romance uma espécie de ponte entre mundos. Sua presença acrescenta à narrativa uma dimensão quase novelesca, sem deixar de estar ancorada em uma personagem histórica real.

O leitor encontra ainda a passagem da comitiva pelo mosteiro de Saint Sabbas, nas proximidades de Jerusalém. Ali, em meio ao deserto da Judeia, Dom Pedro II entra em contato com uma das antigas tradições do cristianismo oriental. A presença dos monges gregos ortodoxos e a atmosfera de recolhimento espiritual oferecem um contraponto à movimentação das grandes cidades. É um espaço de profundo silêncio, fé e contemplação, em que a sensação de atravessar séculos permanece particularmente forte.

  1. A linguagem escolhida

A linguagem utilizada em “O Segredo de Romã” não pretende ser acadêmica ou excessivamente erudita. Optei deliberadamente por uma escrita simples, correta e acessível. Há trechos breves de descrição de paisagens e personagens, mas também diálogos entre o imperador e Romã que procuram revelar a distância social existente entre ambos.

Os diálogos permitem mostrar um monarca sedento de conhecimento, interessado em compartilhar suas observações e, por vezes, em exteriorizar aquilo que sabe diante dos que o acompanham. Ao mesmo tempo, a presença de Romã introduz outra perspectiva, mais prática, concreta e humana.

Foi justamente nessa combinação que procurei encontrar a voz do romance: a do historiador que conhece os documentos, mas aceita os riscos da imaginação; e a do romancista que sabe que, para aproximar o leitor do passado, não basta apresentar fatos. É necessário criar personagens que respirem, caminhem, sintam, conversem e se confrontem com o mundo.

Palavras finais

Ao final da leitura, gostaria que permanecesse a sensação de ter acompanhado uma verdadeira travessia cultural e humana. Talvez a grande riqueza da viagem de Dom Pedro II à Terra Santa esteja justamente na descoberta do outro — não apenas do outro geográfico ou religioso, mas também daquele que, embora diferente de nós, participa das mesmas perguntas fundamentais sobre conhecimento, fé, memória e existência.

Escrever “O Segredo de Romã” foi, para mim, retornar a uma pesquisa iniciada há três décadas e enxergá-la por outro ângulo. O historiador voltou aos documentos; o romancista perguntou o que poderia existir entre suas linhas. Foi nesse intervalo entre o que sabemos e aquilo que podemos imaginar que Romã ganhou voz e que a viagem de 1876 adquiriu uma nova dimensão literária.

Sou, naturalmente, suspeito ao falar de meu próprio livro. Mas espero que o leitor que aceitar o convite para acompanhar essa caravana descubra não apenas uma viagem pela Terra Santa do século 19, mas também uma viagem pelos encontros humanos que tornam a História viva. Acredito que vale a travessia.

Referências bibliográficas:

Faingold, R., D. Pedro II na Terra Santa: Diário de Viagem – 1876. Editora e Livraria Sêfer, São Paulo 1999.

Faingold, R., O Segredo de Romã. Editora KDP – Amazon, Orlando 2026.