Há músicas que nascem de uma melodia; outras, de uma paisagem, de uma lembrança, de uma perda. E há ainda aquelas que nascem de uma história que alguém ouviu e jamais conseguiu esquecer. A Misa Criolla, do célebre compositor Ariel Ramírez (1921–2010), pertence a essa última categoria.
Hoje, ela é uma das obras mais conhecidas da música argentina. Foi gravada por grandes intérpretes, percorreu teatros, igrejas e catedrais, atravessou continentes inteiros e chegou até a Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Mas existe uma história muito menos conhecida por trás de suas notas. Uma história que começa na Alemanha, poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Ela envolve duas mulheres, prisioneiros judeus, fome e uma cerca de arame. Envolve pequenos pacotes de comida levados clandestinamente para um lugar onde a vida humana havia perdido seu valor sob o regime nazista. Foi justamente dessa memória que, anos mais tarde, nasceu uma das mais belas obras musicais da Argentina.
Para compreender a Misa Criolla, é preciso, portanto, voltar no tempo, pois, muito antes da música, havia uma história.
- Ariel Ramírez e sua chegada à Europa
Ariel Ramírez nasceu na província de Santa Fe, Argentina, em 1921. Desde jovem, aproximou-se da música popular e do folclore local. Pianista, compositor e pesquisador das tradições musicais de seu país, percorreu diferentes regiões da Argentina, recolhendo ritmos, melodias e experiências que mais tarde seriam incorporados à sua obra.
Mas, nos primeiros anos da década de 1950, Ariel Ramírez ainda estava longe da fama internacional. Era um jovem músico procurando conhecer o mundo. A Europa representava para ele uma excelente oportunidade de aprendizado e descoberta. Ramírez lembra:
“En Roma había conocido al padre Antuña, estudioso prelado de Argentina, quien me presentó al Padre Wenceslao van Lun, un holandés con quien nos entendíamos en un italiano básico pero eficaz. Van Lun me llevó a Holanda y desde allí me recomendó a un convento en Würzburg, una pequeña y hermosa localidad a unos 100 kilómetros de Frankfurt”.
E foi assim que chegou à Alemanha, um país que ainda carregava marcas profundas de uma guerra recém-terminada.
Instalado em Würzburg, na Baviera, Ariel Ramírez encontrou hospedagem em um convento ligado aos missionários de Mariannhill. Era um lugar aparentemente tranquilo. O jovem argentino não dominava o alemão e tinha dificuldades para se comunicar com os religiosos. Foi nesse ambiente que conheceu duas mulheres que desempenhariam um papel inesperado em sua vida: Elisabeth e Regina Brückner.
Ele ainda não sabia, mas aquele encontro mudaria para sempre a maneira como se lembraria da Europa. E, muitos anos depois, ajudaria a dar origem à célebre Misa Criolla.
- As irmãs Elisabeth e Regina Brückner
Foi durante sua permanência em Würzburg que Ariel Ramírez conheceu as irmãs Elisabeth Brückner (1899–1981) e Regina Brückner (1896–1967). Elas trabalhavam na cozinha do convento onde o compositor se hospedava. Segundo Ramírez:
“La realidad era que las hermanas Elizabeth Brückner y Regina Brückner habían vivido en Portugal, y algo de español entendían, lo cual fue para mí una salvación en todo sentido: por fin podía dialogar y, por añadidura, desde ese día, empecé a comer con ellas en la mesa de trabajo de la cocina.”
A proximidade criou uma relação de confiança com o jovem músico. As mulheres conversavam com ele e, pouco a pouco, começaram a contar histórias sobre os anos do nazismo.
Ramírez comenta que frequentemente, da janela da cozinha, contemplava uma magnífica paisagem de bosque, gloriosamente verde, diante da qual se erguia um enorme casarão branco que ainda guardava as últimas neves da primavera. Tanta beleza despertava nele sentimentos exultantes e, segundo suas próprias palavras, fazia-o sentir-se “um passo acima da terra”.
As irmãs, porém, não compartilhavam o mesmo entusiasmo. Segundo o relato posteriormente transmitido por Ramírez, elas lhe contaram que aquela grande casa e as terras próximas haviam feito parte de um campo de concentração onde se encontravam cerca de mil prisioneiros judeus.
A narrativa descreve um gesto silencioso de solidariedade: sobras de alimentos preparados no convento não eram descartadas; eram levadas até as proximidades da instalação onde se encontravam os prisioneiros. Ali, os alimentos eram cuidadosamente deixados em sacolas para que pudessem ser recolhidos.
Dia após dia, durante oito meses, esses pacotes desapareciam. Até que, certo dia, deixaram de ser retirados e começaram a se acumular. A casa estava vazia, e rumores já circulavam indicando que os prisioneiros haviam sido transferidos.
É importante, porém, distinguir aquilo que pertence ao testemunho de Ramírez daquilo que pode ser comprovado pela documentação histórica. A existência das irmãs Brückner e sua ligação com Würzburg encontram respaldo em fontes alemãs; já detalhes como sua condição religiosa, a identificação precisa do campo e a dimensão exata da ação de auxílio ainda exigem investigação documental mais aprofundada.
É nesse sentido que devemos compreender o episódio: como uma história transmitida a Ariel Ramírez por duas mulheres que teriam vivido aqueles anos e que permaneceram em sua memória muito depois do fim da guerra.
O regime nazista perseguia os judeus como parte de uma política sistemática de exclusão, deportação, encarceramento e assassinato. A fome também fazia parte da realidade de muitos campos e locais de detenção. Dar comida a um prisioneiro judeu não era apenas oferecer alimento: era reconhecer naquele indivíduo um ser humano quando todo um sistema procurava negar-lhe essa condição.
Segundo a narrativa de Ramírez, as irmãs corriam sérios riscos ao realizar aqueles atos de solidariedade. Elas não possuíam armas, não comandavam grupos de resistência nem tinham poder político. Tinham somente aquilo que estava ao alcance de suas mãos: comida. E tinham ainda uma escolha a fazer: poderiam permanecer indiferentes ou poderiam ajudar. Escolheram ajudar.
Essa história pertence também à memória do Holocausto. Durante aqueles anos terríveis, houve pessoas que esconderam judeus, forneceram documentos, ajudaram crianças a escapar, ofereceram alimentos, abriram suas residências ou simplesmente se recusaram a colaborar com a perseguição. Alguns foram posteriormente reconhecidos pelo Yad Vashem como Justos entre as Nações — entre eles Raoul Wallenberg, Irena Sendler, Luiz Martins de Souza Dantas e Aristides de Sousa Mendes. Muitos outros permaneceram anônimos.
A maioria das pessoas que ajudaram não entrou para a história, mas seus gestos existiram. É nesse universo de resistência moral que o relato sobre Elisabeth e Regina Brückner deve ser compreendido. Elas não podiam deter a guerra nem destruir o sistema nazista. Mas, segundo o testemunho de Ramírez, podiam fazer uma coisa: levar comida a quem tinha fome. E isso fizeram.
- A promessa de Ariel Ramírez
Ariel Ramírez não havia vivido aquela história. Ele chegou à Alemanha depois do fim da guerra. O que recebeu foi uma memória contada pelas irmãs, que haviam atravessado aqueles anos e que decidiram confiar sua história àquele jovem argentino.
Mas Ramírez não esqueceu. Anos depois, em 1954, durante a viagem de navio de Liverpool para Buenos Aires, aquela lembrança voltou à sua memória.
A Europa ficava para trás. O Atlântico se abria diante dele. E, no meio daquela viagem, o compositor tomou uma decisão: um dia escreveria uma obra religiosa em homenagem a Elisabeth e Regina. Seria sua maneira de agradecer.
A promessa permaneceu durante anos, até que, na década de 1960, Ariel Ramírez encontrou a forma que procurava. Conversou com seu amigo de juventude, o sacerdote Osvaldo Catena, e surgiu uma ideia extraordinária: por que não criar uma missa utilizando os ritmos musicais da América Latina?
A proposta encontrou um momento histórico particularmente favorável. O Concílio Vaticano II, iniciado em 1962, estava transformando a liturgia católica e abrindo espaço para o uso das línguas vernáculas. A missa poderia ser cantada em espanhol e poderia ainda falar com a voz musical da América Latina.
Ramírez aceitou o desafio. A obra recebeu o nome de Misa Criolla. Sua estrutura seguiria as partes tradicionais da missa: Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus e Agnus Dei, mas sua linguagem seria profundamente argentina e latino-americana.
O Kyrie recebeu elementos da vidala e da baguala.
O Gloria, do carnavalito.
O Credo, da chacarera trunca.
O Sanctus, do carnaval de Cochabamba, na Bolívia.
E o Agnus Dei, de uma tradição musical de La Pampa.
A obra foi gravada em 1964 e lançada em 1965. Na versão original estavam Los Fronterizos, a Cantoría de la Basílica del Socorro, dirigida pelo padre Jesús Gabriel Segade, Jaime Torres ao charango e outros músicos, sob direção do próprio Ariel Ramírez.
A música estava pronta. Mas, para entender sua verdadeira origem, é preciso voltar àquela janela em Würzburg. Porque a Misa Criolla não nasceu apenas de uma experiência musical. Ela nasceu de uma dívida de memória.
- A importância universal da Misa Criolla
A partir de sua gravação, a história tomou outro rumo. A Misa Criolla deixou de pertencer somente a Ariel Ramírez. Deixou de ser somente da Argentina. Começou a viajar. Sua primeira gravação foi realizada pelo grupo folclórico Los Fronterizos e, ao longo das décadas, a obra ganhou diferentes vozes e interpretações. Entre elas estão as de Mercedes Sosa, José Carreras, Chabuca Granda, Zamba Quipildor e outros artistas.
A versão de José Carreras tornou-se uma das interpretações internacionais mais conhecidas. Mercedes Sosa também gravou sua própria versão, aproximando a obra de novas gerações de ouvintes. A composição havia começado como uma obra de inspiração religiosa e folclórica, mas sua trajetória ultrapassaria fronteiras.
E existe um momento particularmente simbólico nessa história: 12 de dezembro de 2014. Cinquenta anos após sua gravação original, a Misa Criolla foi apresentada na Basílica de São Pedro, no Vaticano, durante a celebração da festa de Nossa Senhora de Guadalupe, padroeira da América Latina.
No Vaticano, a voz principal foi a de Patricia Sosa. A apresentação foi dirigida por Facundo Ramírez, filho de Ariel Ramírez, com a participação do coro romano Música Nuova e de outros músicos argentinos. A celebração foi presidida pelo Papa Francisco.
A cena possuía uma força simbólica extraordinária. Uma composição nascida na Argentina. Escrita por um músico que havia guardado durante anos a história de duas mulheres alemãs. Uma obra cuja origem estava relacionada, segundo seu relato, à memória de prisioneiros judeus perseguidos pelo nazismo.
Uma missa cantada em espanhol. Uma música construída com ritmos latino-americanos. E agora ela ressoava dentro da Basílica de São Pedro, diante do primeiro papa latino-americano da história.
A história de Würzburg havia percorrido um caminho imenso: da Alemanha para a Argentina, da Argentina para o mundo e, finalmente, para Roma.
Palavras finais
Talvez a verdadeira história da Misa Criolla não esteja somente na partitura. Talvez esteja naquele espaço estreito entre o convento e a cerca. Naqueles pequenos pacotes de comida. Nas mãos de duas mulheres que decidiram ajudar pessoas perseguidas.
Ariel Ramírez recebeu essa história quando era jovem. Poderia tê-la esquecido. Não esqueceu. Guardou-a durante anos, atravessou o Atlântico com ela e, finalmente, encontrou uma maneira de transformá-la em música.
Por isso, quando ouvimos hoje a Misa Criolla, podemos escutar muito mais do que vozes, instrumentos e ritmos latino-americanos. Podemos imaginar uma noite silenciosa na Alemanha. Duas mulheres caminhando. Uma cerca. E, do outro lado, judeus esperando. E um pequeno gesto de humanidade atravessando a escuridão.
Talvez seja esse o verdadeiro segredo da Misa Criolla.
Antes de ser música, ela foi memória.
Antes de ser memória, foi solidariedade.
E antes de ser solidariedade, foi uma escolha: não permanecer indiferente diante do sofrimento de outro ser humano.
Bibliografia
LUNA, Félix. Encuentros a lo largo de mi vida. Buenos Aires: Sudamericana, 2004.
MAMANI, Ariel. “La Misa Criolla de Ariel Ramírez. Renovación folklórica argentina y flujos culturales trasnacionales en los años ’60.” Cuadernos de Música Iberoamericana, vol. 35, 2022, pp. 17–38.
FUNDACIÓN INTERNACIONAL RAOUL WALLENBERG. “La Misa Criolla y el Holocausto: Ariel Ramírez y su tributo a dos hermanas católicas que auxiliaron a judíos durante la Shoá.” 31 dez. 2014.
WÜRZBURGWIKI. “Elisabeth Brückner” e materiais biográficos sobre Elisabeth Brückner (1899–1981) e Regina Brückner (1896–1967).
MINISTERIO DE CULTURA DE LA NACIÓN ARGENTINA. “Ariel Ramírez, referente de la música nacional.” Buenos Aires, 2021.
UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Holocaust Encyclopedia. Washington, D.C.
Discografia
RAMÍREZ, Ariel; LOS FRONTERIZOS; CANTORÍA DE LA BASÍLICA DEL SOCORRO. Misa Criolla / Navidad Nuestra. Philips, 1964/1965.
CARRERAS, José; RAMÍREZ, Ariel. Misa Criolla / Navidad Nuestra. Philips, 1987.
SOSA, Mercedes. Misa Criolla. Universal, 2000.
SOSA, Patricia; RAMÍREZ, Facundo. Misa Criolla. Apresentação na Basílica de São Pedro, Vaticano, 12 de dezembro de 2014.
