O talento de Petr Ginz

Este ano ele completaria 82 anos. Com apenas 16 havia escrito contos e produzido 120 desenhos. Deportado para Terezin, acabou morrendo em Suschwitz. Seu desenho, Paisagem Lunar, levado por Ilan Ramon ao espaço, fez Ginz ressurgir das cinzas da Columbia.

Edição 67 – Março de 2010

A descoberta do “Diário de Praga”

Poucas semanas após a desintegração da aeronave Columbia que ceifou a vida do astronauta israelense Ilan Ramon, foi achado o Diário de Praga de Petr Ginz. O fatídico fim da missão espacial estremeceu o mundo. A vida de um jovem israelense que poderia ter contribuído para o progresso da humanidade se perdeu em um instante. A morte de Ramon lembrou repentinamente ao mundo que outras centenas de milhares de pessoas que se encontravam também no início de suas vidas foram perdidas no Holocausto. E Petr Ginz era um dos símbolos mais vivos do Holocausto, já que seu desenho Paisagem Lunar havia sido escolhido pelo astronauta e a equipe do Museu de Yad Vashem para ser levado ao espaço.

Fim de fevereiro de 2003. Um cidadão de Praga ligou ao Museu do Holocausto em Jerusalém oferecendo vender seis cadernos com desenhos realizados pelo jovem Petr Ginz, encontrados num velho prédio do bairro de Modrany. Ao escutar notícias que um astronauta do Columbia havia levado cópia de um dos desenhos de Ginz, ele decidiu enviar eletronicamente ao museu imagens dos textos e desenhos que estavam em suas mãos. A irmã de Petr, Eva Ginz, havia sobrevivido do Holocausto, tinha casado com um homem de sobrenome Pressburger e agora vivia em Jerusalém. No prefácio à edição crítica do Diário de Praga, Chava Ginz Pressburger comenta: “Rever obras de Petr me emocionou muito. Era como se Petr não tivesse morrido, como se ele seguisse eternamente vivo; dando notícias de si e enviando alguma mensagem”.

A descoberta do Diário permitia entender os acontecimentos de 1941-1942, registrados por Petr antes de ser deportado a Terezin, ainda quando os Ginz viviam juntos em Praga. Chava legitimou os cadernos como verdadeiros, reconheceu a letra de seu irmão e ainda lembrou fatos ali descritos. Quando se aproximava o dia da deportação, a letra de Petr mudava gradualmente, ficando cada vez mais nervosa e menos legível. Ele não escreveu nada sobre seus medos, mas suas anotações refletem as nuvens pretas que cobriam os céus de Praga e da Europa.

Petr fabricava seus próprios cadernos para escrever novelas e diários, uma vez que comprar cadernos novos estava fora do alcance dos judeus. O Diário de Praga (todo escrito em papel usado) está composto por dois cadernos: o primeiro contém anotações sobre a vida cotidiana de Petr Ginz entre 19 de setembro de 1941 e 23 de fevereiro de 1942; e o segundo continua com fatos acontecidos entre 24 de fevereiro de 1942 e 9 de agosto de 1942, antes de ser trasladado ao gueto de Terezin.

Não há dúvida que Petr escreveu o Diário para si mesmo, sem a menor intenção de que alguém o lesse. Justamente por isso seu diário tem um valor único, encontrando-se ali um testemunho verídico de sua vida familiar, de amigos e colegas de turma, do ambiente em que cresceu e das tensões do dia-a-dia pela iniquidade nazista. O jovem expõe os fatos de forma concisa, sem exprimir seus sentimentos e sem manifestar preocupações, medos nem ódios. Assim, nos registros encontramos uma ao lado da outra uma nota em que Petr comenta que o impediram de viajar no bonde por ser judeu e outra em que conta que pretende tirar um boletim escolar com todas suas notas.

O Diário de Petr Ginz é também um fiel testemunho do método aplicado pelos nazistas durante o período do Holocausto. Tudo parece funcionar com naturalidade: a comunidade judaica, o hospital e a escola; mas pouco a pouco vão cortando-se as liberdades dos judeus, emitindo-se novas diretrizes limitando sua movimentação, etc. De repente, desaparece um parente, falta um aluno judeu a classe, um professor não vá ao colégio. Tudo vem sinalizando que as deportações começaram. Porém, os que ficam continuam a levar uma vida absolutamente normal. As pessoas com suas malas partem para Polônia em vagões especiais. Nunca voltarão. Elas não fazem a menor ideia de que em apenas uma semana estarão despidos de suas roupas diante das câmaras de gás e seguidamente serão queimadas ou assassinadas de qualquer outra forma.

Petr era um jovem sincero. Certa vez confessou que não escrevia diários para virarem peças literárias. Escritos em estilo sereno, os cadernos incluem também desenhos, na sua maioria ilustrações de novelas de Julio Verne, o escritor favorito do jovem checo. Parte dos desenhos pertence hoje a sua irmã Chava Pressburger e outros ao Museu de Yad Vashem.

Família feliz

O Diário de Praga possui um forte valor sentimental. Ele relata a infância feliz que viveu a família Ginz em Praga, uma infância privilegiada compartida pelos irmãos Petr e Eva. A família morava na rua Starkova em Tesnov, numa casa frente à estação de trem Denis (Denisovo Nadrazi), uma região bonita da cidade, totalmente destruída durante o regime comunista.

O pai Otta Ginz era de Zdanice, localidade perto de Praga, mas sua família era de Kourin. Ele dominava vários idiomas e era diretor do departamento de exportações de uma empresa têxtil. Havia conhecido a sua esposa Marie durante um Congresso de Esperanto, casando-se em 1927. O avô Josef Ginz era uma pessoa culta e tinha uma loja de antiguidades e livros antigos no centro de Praga. Possuía talento para a pintura e fortes inclinações literárias: o neto Petr herdou a veia do avô Josef; morreu jovem aos 55 anos, e sua morte o poupou de dor e sofrimento durante o Holocausto.

A situação econômica da família Ginz era confortável, e os pais eram progressistas muito preocupados em garantir aos filhos uma excelente educação e uma vida saudável. Esporte era para eles fundamental: no inverno praticava-se esqui e patinagem e no verão natação e longas caminhadas.

A mãe Marie Dolanska havia nascido em Hradec Kralove e seu pai era professor da zona rural. Petr e sua irmã visitavam seus familiares maternos para a época do Natal. A mãe amava música, tinha uma bela voz e cantava operas e operetas. Depois da deportação de Petr jamais voltou a cantar.

A educação de Petr e Eva estava sempre orientada para o bem, para a disciplina e para o amor à cultura. Sabiam distinguir o que é certo do que é errado. O Holocausto convenceu os Ginz que no mundo existe gente ruim, fanática, cega, capaz de torturar e assassinar sem compaixão; mas por outro lado souberam entender que há outros seres dispostos a ajudar e para os quais o amor é importante. A alma de Petr estava direcionada para o bem. Tudo o que ele desejava surgia da riqueza de sua alma. Pertencia a essa parte da humanidade que pensava positivo e procurava a verdade das coisas que investigava. Com seus 12-14 anos queria revelar a essência do que pesquisava e descobria. Isto aparece claramente em todas suas criações artísticas; somente no acervo do Museu de Yad Vashem há 120 desenhos.

Diferente de Eva, Petr era uma criança que dificilmente chorava. Ele se interessava por quase tudo, gostava de ser pintor, cientista e literato. Fica difícil registrar uma área do saber que ele não gostasse. Numa entrevista, Chava Pressburger lembrou que seu irmão costumava olhar para o chão, e com certa frequência, achava algum “tesouro” que ia desde uma pedra com algum sinal particular, passando por um pedaço de cristal ou até uma pequena moeda.

Aos 14 anos de idade, Petr Ginz partiu para Terezin. Sua irmã Eva ainda conseguiu vê-lo. Segundo ela “Petr havia-se convertido num jovem alto, magro e pálido, e seu aspecto infantil havia desaparecido por completo”. Suas ânsias de saber continuariam vivas no gueto de TeresIenstadt ou Terezin, campo modelo nazista para visitas organizadas da Cruz Vermelha Internacional.

O jornalizinho “Vedem”

Outubro de 1942. Os nazistas dominam a Tchecoslováquia. Petr Ginz e alguns colegas foram expulsos da escola. A situação começa a piorar. Aquele período da feliz infância denominado “o gueto sem muros” acabava de ruir, iniciando-se agora uma nova etapa longe da família. Petr havia chegado a Terezin, um campo a 65 quilômetros de Praga. Ali foram escritos os dois cadernos que formam o Diário.

Em Terezin, Petr Ginz e um grupo de 100 jovens com idades entre 12-15 anos foram colocados no prédio I, barraca L 417 do campo. Criaram a chamada Republica de Skid, um tipo de orfanato informal. A maioria destes jovens foi enviada para Auschwitz e apenas 15 deles sobreviveram à segunda guerra.

Nas barracas os jovens aproveitavam o tempo livre para ler e escrever. Ali fundaram o jornalzinho Vedem, que em checo significa “liderança”. Este jornal, com preço na capa, era destinado aos jovens e trazia poemas, jogos, charges, palavras cruzadas, críticas literárias de livros, estórias e muitos desenhos. Os conteúdos do boletim eram sempre copiados a mão pelas crianças e lidos nas barracas geralmente na véspera do Shabat. Vedem era clandestino, pois os SS proibiriam sua divulgação. Matérias anti-nazistas escritas com sarcasmo e ironia teriam colocado em perigo o futuro de algumas das crianças.

A fonte de inspiração do Vedem foi o mestre Valtr Eisinger, morto em Buchenwald em 1945. Ele era professor de língua e literatura checa, vivia também nas barracas do prédio I, e supervisionava o trabalho literário dos meninos judeus. Pelo seu talento, Petr Ginz foi editor-chefe do Vedem durante quase dois anos. Ele assinava suas matérias com as iniciais NZ. O sobrevivente de Terezin, Leo Lowy, que trabalhou no jornalzinho Vedem, contou que ao entrar em Auschwitz, Petr foi colocado do lado esquerdo (o lado das câmaras de gás), enquanto ele, Leo, foi colocado do lado direito, conseguindo sobreviver.

Os jovens judeus da barraca L 417 queriam criar um jornal que incluísse temas universais. Numa das revistas foi colocada uma crítica ao livro A choupana do Pai Tomás, comparando a sorte dos escravos africanos na América com o destino dos judeus de Terezin. Os primeiros sofreram pela separação de famílias inteiras durante a segregação racial, enquanto os últimos sofrem também por conta das várias deportações efetuadas. Como podemos ver, o nível de reflexão e abstração desses jovens era fantástico.

Uma outra parte do Vedem eram os denominados “Passeios por Terezin” da autoria de Petr Ginz. Aqui o autor mirim visitava as instituições do gueto, entrevistava pessoas, tecendo seus próprios comentários. O tour pelo gueto incluía a padaria, a maternidade, a estação-central como também uma arrepiante visita ao único crematório.

A deportação dos jovens judeus às câmaras de gás em Auschwitz encerrou por completo as atividades do Vedem. Um dos 15 jovens sobreviventes é Zdenek Taussing, preso em Terezin até obter sua libertação em maio de 1945. Ele ocultou um manuscrito do Vedem na loja de um ferreiro em que seu pai trabalhava, levando este documento a Praga depois de sua libertação. Dos sobreviventes, uma parte voltou a Praga e outra emigrou para os Estados Unidos, Canadá e para países da Europa ocidental. Durante o regime comunista foram feitas tentativas de reeditar o Vedem, porém todas sem sucesso. Nos anos 80 uma versão impressa do Vedem foi lançada na Tchecoslováquia, e foi exposta na “Feira Anual do Livro de Frankfurt” em 1990.

Os desenhos de Petr Ginz

Avessa a uma arte surrealista de simbolismos, a arte de Petr Ginz é uma arte completamente realista e concreta. Enquanto outros artistas perpetuam a memória das vítimas assassinadas; o artista-mirim checo cria arte sem sabê-lo, apenas como passatempo durante sua permanência no gueto de Terezin. Para alguns artistas desenhos e esculturas são um forte meio de expressão, mas nunca uma finalidade em si mesma. Já para Ginz os desenhos representam uma forma livre e espontânea de criar, totalmente despreocupada com um plano específico ou um projeto traçado. Ele aproveita fontes sem adotar um estilo ou uma técnica artística determinada.

Os desenhos de Petr Ginz são doações feitas pelo pai Oto Ginz, ao Museu de Yad Vashem. Eles podem ser divididos facilmente em duas categorias: aqueles que retratam uma temática universal e aqueles que abordam uma temática especificamente judaica. Dentre os temas universais mencionaremos: Vaso de flores – pintura de lápis em papel, 1942-1944; Girassol – aquarela sobre papel, 1944; Flores – aquarela sobre papel, 1944; Telhados e torres de Praga – aquarela com bico de pena, 1939-1940; Pátio – aquarela sobre papel, 1942-1944; e Paisagem lunar – um desenho a lápis sobre papel de 1942-1944.

Dentre os desenhos de temática judaica, estudaremos a seguir os seguintes:

1. Ghetto – aquarela sobre papel com bico de pena, 1944.

2. Quarto dos jovens – aquarela sobre papel, 1943.

3. Rua de Terezin – aquarela sobre papel, 1944.

4. Estadia em Terezin – aquarela sobre papel,1942-1944.

5. O Matadouro – desenho a lápis em papel, 1940 (?)

O desenho do gueto de Terezin possui traços grossos e apagados. Petr retratou uma rua bem estreita com poucos prédios. Janelas e portas de edifícios são verdadeiras manchas escuras. A palavra gueto (escrita com h e dois tt em letras góticas cor bege), pode estar simbolizando a presença da Alemanha em terras checas. O gueto aparece vazio, carente de judeus, criando uma tela que exprime um profundo sentimento de dor e tristeza.

Petr desenhou e pintou com luxo de detalhes o quarto em que moravam os jovens do gueto. Durante minha visita ao Museu de Terezin em 2007, (localizado no mesmo lugar em que existiu o gueto), pude apreciar a montagem de um quarto para visitação. A semelhança entre o quarto mobiliado e a pintura de Ginz é fantástica. Ele retratou os beliches em que dormiam os prisioneiros com traços bem finos. As duas escadas de seis degraus permitem subir ao beliche do andar superior. O cobertor quadriculado, as roupas penduradas em pregos, pares de sapatos no chão e poucas malas colocadas sobre as camas, recreiam o lugar. Mesmo não havendo pessoas retratadas, o lugar respira gente.

Em 22 de setembro de 1944, um mês antes de ser levado à Auschwitz, Petr Ginz desenhou e pintou em aquarela uma “Rua de Terezin” com seu enorme prédio de paredes verdes. Esta é, talvez, a tela mais perfeita pelos detalhes das janelas abertas, todas obtidas com traços finíssimos. No meio da rua do gueto há transeuntes, alguns carregam carrinhos com rodas.

A tela “Estadia em Terezin” nos remete ao drama do prisioneiro em tempos de guerra. Ginz compôs o fundo com um muro de tijolos e na frente colocou um barbante no qual são pendurados os uniformes dos prisioneiros. No chão há também uma camisa e a seu lado uma mala que afunda como um barco na imensidão do mar. Nesse mesmo chão foi tirada uma tábua e dentro do buraco aparecem apenas uma cabeça e os olhos do prisioneiro. Uma mensagem possível: o prisioneiro foi literalmente “tragado” nas profundezas da vala que gerou Terezin. Nessa hora, ele vive seu próprio terremoto, sendo engolido pela terra conquistada e amaldiçoada.

O tema “Matadouro” está ambientado em Praga e vai assinado por Petr Ginz. O prédio em que se abatem animais fica próximo ao rio e, portanto, distante de Terezin. Mas, por que retratar um matadouro? Ginz certamente deve ter observado esse lugar, pelo menos na sua parte exterior. A tela incorpora dezenas de janelas olhando para o rio e uma enorme chaminé que nitidamente sobressai do resto da construção. Uma interpretação permite supor que matadouros e instalações frigoríficas eram lugares escolhidos pelos nazistas para serem rapidamente adaptados em pontos de concentração ou campos de extermínio. Sabemos que ali era mais fácil travestir esses prédios em câmaras de gás ou fornos crematórios.

Palavras finais

Diários como o de Petr Ginz, nos permitem conhecer jovens com uma força de vida indescritível, distantes daquele sentimento devastador que é o ódio. É importante saber que o plano sistemático de aniquilação perpetrado pelos alemães não se concretizou e que o ser humano, quando quer, é indestrutível.

Um jovem de apenas 16 anos nos demonstra, página por página, que está imune ao drama da guerra e a desolação de um mundo que despenca aos poucos. Petr continua incansável, nada o perturba e nada resulta um obstáculo para continuar estudando e crescendo intelectualmente. A morte bate a sua porta em Terezin, mas ele não se rende. Seu mundo não desaba: pesquisa e aprende, sem se deixar vencer pelo cansaço e a fome. Lê e estuda sem sossego numa verdadeira luta contra o tempo.

Petr Ginz vive e explora, anota tudo o que cai em suas mãos. Aperfeiçoa seu inglês. Lê o autor francês Julio Verne a quem admira como escritor. Nem por um momento deixa de saciar suas ânsias de saber, sua sede de conhecimento. Ele convive com o eterno cativeiro do gueto, mas acha tempo suficiente para escrever e desenhar.

Petr não descansa. Dedicado a sua frenética atividade intelectual, aproveita cada minuto. Não desiste jamais de assistir às palestras clandestinas nem às reuniões do seu amado jornalzinho Vedem.  Diante de seu desígnio ele se mostra inabalável e persistente ao ponto de nos fazer derramar lágrimas.

Em 28 de setembro de 1944 o pequeno-grande artista de Terezin foi deportado à Auschwitz. Somente assim deixaria de produzir. Mesmo aqueles leitores mais familiarizados com o Holocausto, poucas vezes terão assistido a uma lição de vida tão digna e exemplar.

Bibliografia

Entrevista com Chava Pressburger (Introducing Chava Pressburger, guest in the program One on One).

Ginz, Petr, Deník Mého Bratra: 1941-1942. Versão inglesa: Ginz, Petr – Diary of Prague: 1941-1942. With an introduction of Chava Pressburger, 2004. Versão espanhola: Ginz, Petr, Diário de Praga: 1941-1942. Publicado por Acantilado, Capellades 2006.

Ornest Zdenek, Marie Rut Krizkova, We are Children Just the Same: Vedem, The Secret Magazine by the Boys of Terezin. JEWISH PUBLICATION SOCIETY. 1995, esp. pág. 47.

O primeiro israelense no espaço. MORASHÁ 39, dezembro de 2002 (Atualidades).